sexta-feira, 1 de abril de 2011

Serge, Nick e Wim

(...) Vem também de alguma coisa que o cinema pode e que apenas ele pode (melhor que a pintura), porque (o cinema) é uma arte figurativa, isto é, repousa sobre a possibilidade de fazer "retornar" as figuras, fazê-las voltar voltar de um passado no qual representaram para alguém alguma coisa única.


Serge Daney ("Nicks Movie", em A Rampa, pag 224)

É por isso que a atitude que consiste em criticar NICK´S MOVIE por razões morais me parece, ela também, tacanha, senão injustificada. O que é abjeto no cinema é a mais valia fugurativa, a "sobreimagem" que um autor resguardado tira do espetáculo de um ator exposto (exposto ao ridículo, à indecência, à morte), é a ignorância de não reciprocidade do contrato fílmico. Mas o que acontece se o ator exposto, que foi também um autor, que entende os dois lados (both sides), suscitou esse espetáculo, se ele o quis? Se ele também deu esse espetáculo? Diante de Ray, há um outro autor, introvertido, ou melhor, pouco à vontade: Wenders. Entre eles, o jogo está à mesma altura, porque eles têm um ponto em comum: são "poseurs"

Serge Daney ("Nicks Movie, em A Rampa, pag 225)


É certo que ao remontar o filme, Wenders traiu alguma coisa: ele traiu o filme de Przygodda (montador do filme, que havia feito uma montagem pouco montada), o documento puro e duro (exibido no Festival de Cannes). Podemos deplorá-lo, claro. Mas é certo que, ao fazer isso, Wenders encontrou o verdadeiro tema de seu filme, nem a morte de Ray, nem a vertigem da filmagem dentro da filmagem, mas a verdade de sua relação com Nicholas Ray.

Serge Daney ("Nicks Movie", em A Rampa, pag 227)




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