sexta-feira, 1 de abril de 2011
subjetivo e sub objetivo
Amigo pede mais subjetividade. Mas tudo já é tão sub objetivo. Temo que o sub, se inflado, descola-se. E nesse descolamento o subjetivo desvairzado avizinha-se de um autismo sub-abjeto. O que se chama, ou a que se clama, de subjetivismo, convenhamos, em algum nível sub-objetivizável
narrador e personagem
narrador e documentário
"São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente".
Preservação de narradores, de si mesmos quase sempre.
Devidamente é termo a dificular essa relação: com o dever de narrar dentro dos conformes mínimas de organização de fatos em forma comunicativa
Estamira narra devidamente?
Anotar para pensar melhor depois
vaca encalhada e leite coalhado
Uma vaca encalhada, para além da possível compaixão gerada nas pessoas de espírito verde, é um entrave no sistema. Uma vaca tem uma função social e econômica. Encalhar é um acidente, caso ela não tenha tido a intenção de encalhar para desviar-se de sua função, um obstáculo à produção. Algo não está ocorrendo segundo os conformes, as regras, o método estabelecido para certo funcionamento.
Avacalhar é encalhar com intenção. Portanto, é desfuncionalizar, não por acidente, mas por atentado. Toda atitude de avacalhação posta-se contra o rendimento de uma consensual conformação de atitudes e de métodos, ou seja, contra uma forma de funcionamento de qualquer sistema ou determinado espaço social-cultural-econômico.
Alguns filmes e diretores em ação no fim dos anos 60 e começo dos 70, em São Paulo, Rio e Salvador, avacalham com o discurso e com a forma fílmica, construindos planos selvagens em suas inventividades e relacionando esses planos com outra lógica articuladora (ou sem lógica aparente).
Antes de responderem imediatamente a um contexto histórico de presente asfixiado e ensaguentado, vinculam-se à uma vertente artística de encalhe de vaca, de atentados contra os modos corretos, segundo a perspectiva da comunicação de informações-emoções do comércio cinematográfico, ou seja, contra o critério estético do lucro
No entanto, O Bandido da Luz Vermelha e A Mulher de Todos, em vez de atentados contra o comércio, foram acolhidos nas máquinas de calcular. Frescor pop esquizóide, um disjunção ainda com pontos de referências e, apesar dos parênteses e hiperlinks, ainda com noção de desenvolvimento, ainda que não linear, não causal, não conduzido por uma bússola
A vaca encalha por opção, mas dá o leite ali mesmo, na lama, e o leite sai coalhado.
Porque leite de vaca encalhada coalha
Serge, Nick e Wim
(...) Vem também de alguma coisa que o cinema pode e que apenas ele pode (melhor que a pintura), porque (o cinema) é uma arte figurativa, isto é, repousa sobre a possibilidade de fazer "retornar" as figuras, fazê-las voltar voltar de um passado no qual representaram para alguém alguma coisa única.
Serge Daney ("Nicks Movie", em A Rampa, pag 224)
É por isso que a atitude que consiste em criticar NICK´S MOVIE por razões morais me parece, ela também, tacanha, senão injustificada. O que é abjeto no cinema é a mais valia fugurativa, a "sobreimagem" que um autor resguardado tira do espetáculo de um ator exposto (exposto ao ridículo, à indecência, à morte), é a ignorância de não reciprocidade do contrato fílmico. Mas o que acontece se o ator exposto, que foi também um autor, que entende os dois lados (both sides), suscitou esse espetáculo, se ele o quis? Se ele também deu esse espetáculo? Diante de Ray, há um outro autor, introvertido, ou melhor, pouco à vontade: Wenders. Entre eles, o jogo está à mesma altura, porque eles têm um ponto em comum: são "poseurs"
Serge Daney ("Nicks Movie, em A Rampa, pag 225)
É certo que ao remontar o filme, Wenders traiu alguma coisa: ele traiu o filme de Przygodda (montador do filme, que havia feito uma montagem pouco montada), o documento puro e duro (exibido no Festival de Cannes). Podemos deplorá-lo, claro. Mas é certo que, ao fazer isso, Wenders encontrou o verdadeiro tema de seu filme, nem a morte de Ray, nem a vertigem da filmagem dentro da filmagem, mas a verdade de sua relação com Nicholas Ray.
Serge Daney ("Nicks Movie", em A Rampa, pag 227)
sexta-feira, 11 de março de 2011
teoria sem autor, autor sem teoria
O autor como manifestação de singularidade em sua ausência.
Nada de desubjetivação, mas de multisubjetividades
Não apenas o múltiplo do único, mas dos únicos reunidos.
Teorias não dão em árvores, nem são frutos de saltos ornamentais
São processos históricos, comparilhados, que interferem-se mutuamente.
Que importa quem fala?
Importa antes o que e como se fala.]
Deixemos os autores para a sobremesa e tentemos nos reter na autoria
O autor é propriedade, prioridade e chave de segurança
A autoria é uma expressão, um travessia sem destino pré-definido e uma constatação de processo
A autoria é fruto de uma relação da obra com seu público
Nada de desubjetivação, mas de multisubjetividades
Não apenas o múltiplo do único, mas dos únicos reunidos.
Teorias não dão em árvores, nem são frutos de saltos ornamentais
São processos históricos, comparilhados, que interferem-se mutuamente.
Que importa quem fala?
Importa antes o que e como se fala.]
Deixemos os autores para a sobremesa e tentemos nos reter na autoria
O autor é propriedade, prioridade e chave de segurança
A autoria é uma expressão, um travessia sem destino pré-definido e uma constatação de processo
A autoria é fruto de uma relação da obra com seu público
entrevista, fala, personagem
Algumas generalizações válidas apenas pela constância na experiência pessoal. Um documentário a fazer. Ou doc, como diz hoje, em neo hierogrifo. Um doc a fazer implica encontrar personagens. Aciona-se o mecanismo de caça a tipos exóticos e incomuns. Personagens significam, genericamente, gente incomum. E performática. É preciso estar bem diante da câmera. Essa performance para a câmera se dá sobretudo pela palavra. Com ou sem pergunta, importa, para esses docs de personagens, a a entrevista. Construção pela fala.
Jean Claude Bernardet implica com isso no posfacio da edição atualizada de Cineasta e as Imagens do Povo. A palavra não é tudo. A historiadora argentina Beatriz Sarlo questiona a sacralização do verbo, sobretudo das vítimas, e a transformação de auto-relatos como atestado da verdade. Deixa--se de construir um ponto de vista, a partir da relação entre testemunho de experiência e o olhar para essa experiência, para se terceirizar a discursividade em direção a quem fala. Fala-se o que? Em resposta a quais perguntas? Elias Canetti parte do princípio de que a pergunta é um gesto invasivo. Uma estratégia de cerco, de tocaia, de jogo, em busca de um algo a mais, algo ainda não liberado.
Nada contra.
Contra, sim, modelos. A entrevista sempre esteve no documentário brasileiro desde "Viramundo," de Geraldo Sarno, e "Maioria Absoluta", de Leon Hirzsman, mas naquele momento era usada a partir de uma tema, com uma hipótese construida em cima de uma seleção de momentos de falas.de anônimos ,com autobiografias sintetizadas e nenhuma indvidualidade ou mesmo nomes próprio.s Importa o que fazem, o que pensam de sua situação, qual seu lugar na socidade, não o que sentem.
A nova entrevista, pelo menos desde "Boca do Lixo" e "Santo Forte," de Eduardo Coutinho, desloca-se para o subjetivo. Importa menos o contexto no qual se dá a experiência invidual e mais o indivíduo como presença cênica diante da câmera. Importa o extraordinário do encontro, na linha Jean Rouch, mas um encontro sempre muito frontal, cineasta quase sempre fora, personagens dentro, o fora adentrando ao plano pelas perguntas.
Há formas e formas de se chegar ao personagem. Nem sempre pela palavra.
Não há apenas personagens.
Respostas a perguntas já feitas: o tomate é o personagem principal de "IIlha das Flores," de Jorge Furtado, assim como é uma fotografia a personagem central de "Ulisses", de Agnes Varda.
Desapresender é mais difícil que aprender alguma coisa.
coração selvagem e a imagem-interior
Nos primeiros minutos de "Coração Selvagem", direção de David Lynch, Lula aciona flash-backs, imagens de sua memória, de seu interior. Sangue e chamas.
Uma imagem com um dentro com outra imagem.
O fogo retorna em outros momentos.
Essa imagem de dentro, gerada pelo interior de um personagem, recusada por Jean Douchet em sua crítica a "O Ano Passado em Marienbad", de Alain Resnais, é irradiada lá dos anos 20 em muitos filmes vinculados à vanguarda francesa (de Jean Epstein, Germaine Dullac)
Nos anos 00, 90 anos depois da estilização da interioridade, de imagens de sonhos e de alucinações, de desejos e de lembranças, a imagem de dentro é standart.
Vejam os filmes recentes dos bombadinhos Daren Aronofski e Christopher Nolan.
"Cisne Negro" e "A Origem" são o paradigma.
Nos dois casos, há o dentro e fora, assim, bem ordenados, e no finalo fora se impóe, se não como certeza, certamente como direcionamento.
Um na morte.
O outro no retorno do luto.
Uma imagem com um dentro com outra imagem.
O fogo retorna em outros momentos.
Essa imagem de dentro, gerada pelo interior de um personagem, recusada por Jean Douchet em sua crítica a "O Ano Passado em Marienbad", de Alain Resnais, é irradiada lá dos anos 20 em muitos filmes vinculados à vanguarda francesa (de Jean Epstein, Germaine Dullac)
Nos anos 00, 90 anos depois da estilização da interioridade, de imagens de sonhos e de alucinações, de desejos e de lembranças, a imagem de dentro é standart.
Vejam os filmes recentes dos bombadinhos Daren Aronofski e Christopher Nolan.
"Cisne Negro" e "A Origem" são o paradigma.
Nos dois casos, há o dentro e fora, assim, bem ordenados, e no finalo fora se impóe, se não como certeza, certamente como direcionamento.
Um na morte.
O outro no retorno do luto.
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